O João de Barro e a construção de uma nação

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O filme João de Barro relata a história de como o pássaro de mesmo nome constrói sua moradia. Filmado em 1956 pelo cineasta Humberto Mauro, o filme integra a série de filmes produzidos pelo INCE (Instituto Nacional de Cinema Educativo), que buscava enaltecer o Brasil e suas riquezas naturais. Além disso, percebe-se um forte apelo regionalista na obra do cineasta.

A produção tem duração de 21 minutos. Inicialmente nos é apresentado o cenário do documentário. A história se passa na Zona da Mata em Minas Gerais. Nas primeiras cenas uma família é apresentada. O pai, figura do provedor da casa em seu caminho para o trabalho e a esposa, cuidando dos filhos. Antes de apresentar o João de Barro, ninhos de outros pássaros como os sabiás são mostrados.

O cineasta utiliza planos abertos em contraste aos planos fechados e na transição das imagens há cortes “secos”, utilizando o plano geral. E também a narrativa imprime a imagem do joão-de-barro em torno da organização e construção de sua casa. O documentário é entrecortado por períodos longos de silêncio, mesclando a trilha sonora clássica com sobe sons do canto do joão-de-barro.

Nota-se neste fato a apropriação de elementos eruditos, como a música clássica, aproximado ao popular. Por se passar em um ambiente rural, a película retrata um país até então esquecido.Além dessa incorporação ao popular, Humberto Mauro faz um jogo imagem-música transformando o pássaro em maestro regente de sua obra, isto é, a construção da casa do João-de-barro.

Ao tecer sua moradia de barro o pássaro também usa materiais como palhas e fibras e sua ferramenta para juntar tais materiais é o bico. Por isso, o cineasta o focaliza em plano fechado cada movimento da ave. Quando o pássaro acelera seu movimento a música de fundo acompanha o ritmo, atinge o clímax. Nos movimentos mais leves a música torna-se mais lenta.

Não há movimentação de câmera, as imagens captadas são em sua maioria com o equipamento parado. Existem apenas dois momentos do documentário em que é visível o movimento da câmera, que busca captar em sua totalidade os hábitos do pássaro. Quando o João-de-barro sai de sua árvore e caminha pelo chão em busca de materiais, a câmera é retirada do tripé e caminha junto. Tal situação é evidenciada em duas cenas.

Somos guiados desde o início, a acompanhar a organização e os hábitos do pássaro.

Por trás das imagens

Pesquisando os objetivos do INCE (Instituto Nacional de Cinema Educativo) fica clara a idéia de educar a população. O departamento foi criado não somente para difundir os ideais políticos da era getulista a estudantes, mas também a massa populacional constituída por operários, donas de casa, entre outros. Difundia os ideais da elite governista da época.

Estamos na era Juscelino Kubitschek em que os ideais desenvolvimentistas da economia são a preocupação principal do Estado. E esta visão é percebida no documentário. Não absorvemos apenas o cotidiano do João-de-barro em seu habitat, mas também seus ensinamentos. O primeiro é a preservação da instituição familiar. Na narração, o comentarista cita o fato de o pássaro ter apenas uma companheira, casar-se com ela, construir sua casa e depois de cumpridas estas etapas têm seus filhotes.

Em contraste a isso, retomamos o início do filme quando nos são apresentadas às personagens. O homem é mostrado indo para seu trabalho braçal, como desbravador enquanto que a mulher aparece na casa, cuidando do bem estar dos filhos. Esta cena é comparada à imagem da família do joão-de-barro.

Outro fator destacado é o da migração nordestina, quando muitos vão morar nas capitais e grandes centros urbanos, participando da construção civil. Torna-se mão-de-obra indispensável para o desenvolvimento. É o momento em que o narrador destaca ser a ave originária do Ceará e Bahia. Todo o documentário é filmado na Zona da Mata em Minas Gerais. O processo de verticalização das cidades também ganha destaque no filme quando o cineasta focaliza ninhos de joão-de-barro sobrepostos, por vezes assobradados, por vezes em colunas.

A idéia da construção do país, defesa das reservas nacionais e desenvolvimento econômico, despertar do conhecimento popular e apropriação dos bens da elite, além do forte apelo à pátria permeiam toda a construção do documentário.

Por Suzana Nogueira

DVD Humberto Mauro

Ficha Técnica:O João de Barro

Registra os hábitos do joão-de-barro, pássaro cor de ferro, papo branco e cauda vermelha.

Ficha técnica:

1956 p&b 35 mm 21 minutos.

Direção: Humberto Mauro

Produção: Instituto Nacional do Cinema Educativo – INCE

Fotografia e montagem: José Almeida Mauro

Colaboração: Matheus Colaço.

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3 Respostas to “O João de Barro e a construção de uma nação”

  1. stedurst Says:

    Ficou ótimo seu texto Su, que ótimo que você colocou nosso trabalho no blog, assim quem não tem conhecimento dos documentários de Humberto Mauro ficam informados! Beijos!

  2. josé fortunato mendes Says:

    Como posso adiquirir DVD do filme João de Barro?

  3. Valdirene Says:

    Como posso adquirir o DVD do filme João de Barro

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